Calliantéia...

...é a soma de POLIANTÉIA, que significa "reunião de variados dados de um determinado tema" e CALLIOPE, minha identidade virtual há 10 anos, nickname que sempre uso, retirado da Mitologia Grega.





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Segunda-feira, Novembro 29, 2004

Um par de luvas e um lindo por do sol

O Luizinho é um menino muito bacana, de uns 9 anos, filho da Solange, que tem uma lojinha de doces no meu trabalho. Outro dia eu cheguei e ele veio correndo me mostrar a novidade: estava com um par de luvas amarelas, aquelas que a gente usa pra fazer limpeza, fazendo de conta que era um super herói, feliz da vida. Os dedos da luva eram muito maiores que os dele, mas isso deixava a coisa ainda mais interessante. E não era só pra mim, mas a todos que passavam, que ele corria a mostrar seus feitos com as tais luvas. E enquanto eu conversava com sua mãe, fiquei ali, reparando no quanto um simples par de luvas fazia dele a pessoa mais feliz do mundo. Por que os adultos perdem isso, não? Por que a gente não consegue ser feliz, assim, com coisas simples? Onde foi parar a nossa imaginação? Queria ter aquele ar de felicidade dele (ou ao menos, metade da sua energia, hehehehe). Então naquele dia lembrei de fazer algo simples, mas que me faz muito bem: ao sair do trabalho, fui até a praia, tirei os sapatos, pisei na areia, caminhei pela beira da água, sem pensar em nada, só curtindo aquele momento, enquanto apreciava um belo por do sol. E por uns instantes, fui tão feliz quanto o Luizinho. Preciso lembrar de agradecer o meu pequeno amigo ;)

Postado por Calliope, em 12:43 PM
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Quinta-feira, Novembro 18, 2004

Pedra no assunto

O dia do meu aniversário serviu também para uma outra coisa: recomeçar. Afinal é uma boa data para a gente finalizar um ciclo. Faltava fazer isso dentro do meu coração, era algo que eu devia pra mim, uma definição que o outro deveria dar, mas que não teve consideração, nem coragem suficiente pra fazer. E se não as teve a 7 meses atrás, não vai mais. É uma pessoa fraca demais para isso. Eu subi um a um os degraus do fim, e não corro mais o risco de voltar. Doeu demais, mas eu tirei o luto. As lágrimas secaram, junto com a esperança. Escrevi um poema como forma de expurgar o que restou ainda...aí vai

Triste Despertar

É caco de vidro estilhaçado no chão
São cicatrizes recentes
gritantes, amargas, pungentes,
dolorindo o combalido coração.
É uma vontade desmedida de chorar
que enche os olhos de água
e a alma de uma gélida solidão.
Querer sair correndo, sem rumo
e de vez perder o prumo
nunca mais ouvir a razão.
É assim, sim senhor
o cenário desolado, sombrio e triste
do fim de um amor unilateral.
Que de teimoso, resistiu
feito folha lançada num vendaval.
Mas que aos poucos cede
ao notar que nada impede
o outro de tudo remediar
e nada faz, nada diz, nada explica
e tudo isso só complica
a imbricada situação.
É um apagar de todas as luzes,
sair de cena sem ninguém notar.
O final do fim, sem prorrogação
sem chances, nem desculpas, nem a menor consideração
E tudo acaba. Desaba.
Não há vontade, saudade, ou piedade
Nada que faça o mundo voltar atrás
nem motivos, nem remédio eficaz
Só há um triste despertar.
E a vida, assim sofrida,
Só me resta continuar.


E o vento vai levando tudo embora... (Legião Urbana)

Postado por Calliope, em 11:58 AM
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É pique, é pique, é pique....

Semana passada foi meu aniversário. Por mais que eu tivesse alardeado a todos que não queria comemorar, que estava triste demais para isso, por lembrar do aniver do ano passado, não tive como evitar: foram 3 comemorações, de bom tamanho! Não fugir delas, no fim das contas, me fez bem, pois não há tristeza que resista quando a gente fica rodeado de carinho e atenção.
Primeiro foi no trabalho, uma comemoração dupla, do meu e do aniver de uma estagiária de veterinária. Como a festa hippie havia sido um sucesso, apostamos mais uma vez numa festa temática, e desta vez a minha favorita: brega! Eu me senti como nos gloriosos tempos de festa brega do CAASO, em São Carlos, saindo para comprar badulaques, bijus, adereços e escolhendo modelitos extravagantes. Fiz uma produção caprichadérrima, de cores berrantes, flores e brilhos, fiquei parecendo a esposa do Falcão, por causa dos girassóis de plástico. A música ficou por conta de duas rádios horrorosas, até os comes e bebes estavam bregas, com direito a guaraná Dolly e salgadinhos tipo "isoporzitos". O mais engraçado, no entanto, foi o fato das duas aniversariantes esperarem que a outra trouxesse o bolo...resultado: velinhas apagadas numa torta de limão (por sinal, ótima). E eu não vou esquecer o fato da Dani, mesmo doente, ter ido à festa, numa demonstração de consideração imensa.
A segunda comemoração veio nas primeiras horas do dia do meu aniversário, quando a Roberta me levou ao Lido, famoso barzinho da rua onde moro, mas que inacreditavelmente eu nunca tinha ido. Não como bar, porque o Lido foi o primeiro lugar que estive quando cheguei nesta cidade, há vinte anos atrás. Digamos que mudou um bocado :) E estava ótimo, casa lotada, gente bonita, música boa, e o cenário deslumbrante que eu conheço de cor. A Roberta foi uma anfitriã perfeita, me deixando super a vontade, mostrando todos os ambientes, sendo atenciosa o tempo todo. Suas amigas também não estavam muito bem, uma delas inclusive havia terminado o namoro 20 minutos antes de ir pro bar conosco, a outra dizia que estava arrependida de deixar o gatinho de SP. Mas mesmo assim a Rob´s querida ficou comigo pra cima e pra baixo, me apresentando a todo mundo, não como sua chefe, mas como amiga, o que me deixa sempre feliz, e perguntando toda hora se eu estava melhor. E eu estava alegre sim, dançando com a banda Carlos Bronson, e acabei até bebendo, o que por conta do remédio eu nem poderia ter feito...Conheci o Uruka que meu irmão tanto fala, que deu uma canja bem legal e ainda por cima me deu os parabéns (mais uma vez, a Roberta!) e sem nem saber que eu era irmã do Dudu. Assim que ele desceu do palco, eu contei e ele foi super atencioso! Ele toca gaita com o pessoal do Charlie Brown Jr.
A terceira e última comemoração foi em casa mesmo, com a família. A Carol fez um delicioso bolo de chocolate e o Tiago ficou eufórico ao cantar parabéns e me ajudar a apagar a velinha, ele adora isso :) Foi algo bem íntimo, só pros de casa, mais o Baixinho, o Giovanni e o Cristiano. O Cris passou a tarde toda brincando com o Titi ficou até os parabéns. Sem ele não teria sido a mesma coisa, afinal de contas ele continua sendo o meu melhor presente de aniversário dos últimos 16 anos :)
Recebi telefonemas, mails, cartões, torpedos, beijos, abraços, presentes, tudo aquilo que torna um aniversário especial e feliz. Agradeço a todos que não me deixaram afundar em depressão, como eu queria. Foi a melhor contrariedade sofrida ultimamente ;) Agora vou curtir o fim do meu inferno astral! Let´s celebrate!

Postado por Calliope, em 10:51 AM
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Quinta-feira, Novembro 11, 2004

O grande pescador de estrelas

Seu Zé Carlos, ou simplesmente, seu Zé, adorava pescar. Desde que me entendo por gente era assim: pra vê-lo feliz, era só ele pegar umas iscas, sua sacola de "apetrechos" de pesca, a vara e ir pra beira do mar. Um exercício de paciência muito fácil para alguém com um jeito muito tranquilo de ser. Era seu hobbie favorito!
Ele já tinha pescado em rio, lago, em tudo quanto era lugar que tivesse peixe. Na sua casa, guardava fotos de pescarias memoráveis com grupos de amigos, em excursões por este Brasilzão afora. Tinha que ter registro, para não parecer estória de pescador. Ele não era muito de se gabar, mas se puxasse assunto....emendava um "causo" no outro! Dois dedinhos de café, o inseparável maço de cigarros e pronto, o tempo parava para a gente ouvir ele falar, com sua voz grave, seu incrível bom humor e seu dom de oratória de dar inveja a qualquer político.
Seu Zé era figura simples. Morava com a irmã desde que separara da esposa, desgosto do qual nunca se recuperou, mas jamais se queixou. Era de sofrer calado, para não preocupar os quatro filhos, já criados. Não carregava nem mágoa, nem amargura em seu coração de ouro, muito pelo contrário: tinha uma alma boa e nobre.
Difícil era não se encantar por ele. Dos amigos do clube de pesca (do qual era redator do jornal informativo) às enfermeiras que dele cuidavam nos hospitais em que o corpo cansado o obrigava contrariadamente a ficar, cativava a todos. Seu Zé tinha pinta de lorde inglês, com seu jeito educado, vocabulário vasto e rico, e pelo andar altivo, e ao mesmo tempo era o típico caiçara, de quem não precisa de muita coisa pra viver, sem se preocupar com as fogueiras de vaidades do mundo. Com aqueles olhos pequenos, que eu nunca soube ao certo se eram verdes ou azuis, ele enxergava longe, fosse um olhar para o passado, ou para o futuro. A religiosidade trouxe a serenidade que ele precisava para encarar os males do corpo, combalido por anos de doenças crônicas, e o ensinou a não temer a morte, tema sobre o qual discursava sem problemas. Tinha paixão pelos livros, lia muito, o que tornava suas conversas sempre interessantes, e apurava seu gosto. Não gostava de ver televisão e só ouvia música clássica. Estudava a bíblia a fundo, sempre fazendo ensaios sobre diversos temas religiosos, que copiava numa pasta e guardava, para compartilhar com quem não se entediasse diante do tema. Era religioso sem ser chato, nem insistente, jamais impunha aos outros suas crenças. Eu podia ficar horas a fio ouvindo ele falar, sem me cansar.
Eu só não era boa compania de pesca. Tinha pena dos coitados capturados, e ao menor descuido, devolvia-os à água. Não suportava ver os pobrezinhos agonizando lentamente. Com isso, declinava cada vez mais de seus convites, procurando não entristecê-lo por isso. Mesmo sem dizer diretamente, seu Zé entendia o recado e me convidava cada vez menos. Até que por conta do mestrado eu virei uma exímia matadora serial de peixes, e passei a ter menos pena daqueles que mais tarde se transformariam numa bela iguaria pelas mãos talentosas de seu Zé, um cozinheiro de primeira. E passei a acompanhá-lo mais nas pescarias, pelo simples prazer de
observá-lo. E eu passava horas a fio assim, vendo ele jogar o anzol, recolhendo a linha no molinete, ajeitando a vara entre as pedras. O cheiro de sal vindo do pote de iscas, a maresia, a brisa suave, o boné surrado cobrindo a careca, os chinelos sujos de areia, tudo isso entremeado de bom papo, quase sussurrado, pra não espantar os peixes. É assim que eu gosto de lembrar dele. Do gosto bom do seu peixe com pirão. Das risadas gostosas. Do carinho.
Aprendi a cozinhar com ele, tenho a mão do seu tempero. Foi assim que tomei gosto pelo pimentão, pelo azeite no lugar do óleo, colocar cebola em tudo....Ele sentava na cozinha e ordenava: pegue isso, lave aquilo, mexe um pouco mais o refogado, e eu ia fazendo, sob sua supervisão. Era a ajudante oficial. E os doces? Nosso bolo de baunilha com recheio de creme de ameixas ainda é imbatível!
Com o tempo fui vendo o seu Zé cada vez menos, uma dessas peças que o destino insiste em nos pregar. Isso tornou suas visitas ainda mais especiais e mais comemoradas, intensas. Eu era capaz de relevar até mesmo suas baforadas de cigarro, só para ficar perto dele. Cansava de brigar com ele por conta do maldito vício, desisti depois de muitas tentativas. Bonachão como todo neto de italiano, ele brincava dizendo que era pra gente levar cigarro pra ele lá no túmulo, quando morresse. Ele misturava caduquices e verdades com tanta inteligência, que a gente também brincava com ele, dizendo que o dia em que ele caducasse de verdade, a gente não ia nem perceber a diferença.
Não era só de pescaria que o seu Zé entendia, mas da vida. Esta lhe deu tantas reviravoltas, tantos revezes, que só sendo muito forte para aguentar os trancos. Em cada batalha ele acumulou experiência, sabedoria, discernimento, e sabia a dose certa a oferecer a quem procurasse um de seus conselhos. E com que maestria falava das coisas do coração. Só mesmo conhecendo o seu Zé Carlos pra saber.
Hoje, 11 de novembro, o seu Zé estaria completando 70 anos de vida, se estivesse entre nós. Mas Deus o chamou para pescarias maiores e mais longes. Hoje, seu Zé é pescador de estrelas. E lá em cima deve continuar espalhando a sua boa prosa.
E até que possamos pescar juntos de novo, vou matando um pouco da imensa e esmagadora saudade que tenho dele, ao recordar o ser humano fantástico e maravilhoso de quem eu tenho a imensa honra de ser a filha primogênita.
Feliz aniversário, papai, onde quer que você esteja.

Postado por Calliope, em 10:43 AM
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Quinta-feira, Novembro 04, 2004

Dezenove vezes, um por cento e meio por cento

Por mais que eu não goste de matemática, sei que ela permeia todos os atos da nossa vida, que a utilizamos todo o tempo.
Recentemente alguns números me impressionaram. Isso não acontecia desde quando eu li que metade da população mundial não sabe ler nem escrever....dá pra acreditar que absolutamente tudo que temos de livros, de escrita, de tecnologia, é só pra metade???? Bom, eu estava lendo sobre o indiano que criou o Hotmail, o primeiro e-mail grátis. Quando ele e o sócio criaram o projeto, precisavam de um patrocinador que investisse 300 mil dólares no negócio. Eles bateram na porta de 19 empresas até obter sucesso, na vigésima. Ouvir 19 nãos e continuar tentando? Eu achei isso incrível! Eles realmente acreditavam naquilo. Eu acho que se fosse eu, teria desistido lá pela terceira ou quarta vez, até menos....Quantas vezes eu cedi ao primeiro não do meu chefe? E quantas vezes evitei o primeiro não? Mas agora eu vou lembrar destes 19 nãos, quando tiver que pedir outra coisa a ele!
Semana passada teve a polêmica do jogador de futebol que morreu em campo, o Serginho. Não houve quem não comentasse o caso. E sempre lembravam da chance de 1% que a equipe médica disse que ele tinha de sofrer um ataque fulminante como aquele: nunca uma porcentagem tão pequena pareceu tão relevante! Tudo bem que os fatos posteriores discutem essa tal 1%, mas o fato é que o número não será esquecido. Um por cento de chances, um porcento de margem de erro, sempre foram desconsideradas, ou como se diz no jargão, não são estatisticamente significativas. Mas aposto como os professores de estatística vão usar o exemplo deste caso em suas aulas!
Mas o pior de todos é o 0,5 %. Meio por cento é o que o governo espera economizar de energia com o maldito horário de verão!!!! Qualquer campanha, não precisa nem ser bem feita, de economia de energia, surtiria mais efeito, com certeza. Mas eles preferem mexer no nosso relógio biológico e roubar uma hora de meu precioso sono. Ninguém vai me convencer de que isso vale a pena, ah, não mesmo. Desta vez os números estão a meu favor.

Postado por Calliope, em 12:21 PM
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