Calliantéia...

...é a soma de POLIANTÉIA, que significa "reunião de variados dados de um determinado tema" e CALLIOPE, minha identidade virtual há 10 anos, nickname que sempre uso, retirado da Mitologia Grega.





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Terça-feira, Novembro 29, 2005

No vão da porta

Quando um relacionamento amoroso acaba, uma das piores coisas que pode acontecer a meu ver é deixar uma porta entreaberta. Não falo da porta deixada aberta de propósito, por aquele que levou o fora, que não acredita no fim, numa tentativa quase desesperada de reconciliação, dolorosamente unilateral. Falo daquela porta entreaberta de comum acordo, quando o final parece ter sido levado por circunstâncias ruins, pelos fatos, não pela condição em si do sentimento. Quando tudo parece desculpa e o sol se esconde por trás da peneira. Uma porta entreaberta dizendo que não acabou, que nunca subiremos os degraus da separação por completo, que estaremos presos aos ciclos infindáveis de recomeços e fins temporários. Não, ninguém merece viver nesta angústia de estar entre ser e não ser, ter e não ter! Sem uma porta definitivamente trancada, como podemos procurar outras saídas, olhar para outras pessoas, encontrar um novo rumo? Como reconstruir os sonhos, se o vento frio que passa pelo vão da porta não nos deixa em paz, fazendo com que os fantasmas da relação anterior bailem sarcasticamente à nossa frente? Como lidar com a confiança abalada?
Eu queria ter forças pra trancar a porta, jogar a chave fora, queimar a ponte de vez, mas não tenho. Queria que em minha cabeça os motivos da separação fossem maiores e mais fortes do que a saudade, ao menos mais significativos.... e não sei nem mesmo dizer o quanto eu realmente quero isso. A única certeza que tenho é de que preciso resolver isso logo. Dar uma nova chance ou acabar com a esperança de vez. O meio termo é quase insuportável, sufocante, cheio de angústia e de medo. Se acabou uma vez, o que faria não acabar de novo? O que teria de ser reescrito para termos um final feliz? Saberá ele o poder que tem sobre mim, ainda?
De duas, uma: ou aprendo a lidar com a forma dele me amar, aceitando a diferença no modo de enxergar as coisas, e luto por este amor como jamais o fiz, ou então me convenço de que ele simplesmente não me ama, e nenhuma circunstância é capaz de mudar isso. De posse de qualquer uma destas certezas eu poderia enfim sair desta angústia, acabar com o vão deixado pela porta entreaberta. A mesma porta que julguei ter trancado há algum tempo atrás e que denuncia a fragilidade desta separação. Diante da qual eu sentei e chorei até a última gota. No vão desta porta ficou o meu coração inconformado, cercado por meus sonhos e medos mais profundos. Nele ficarei sentado, até ter forças para levantar e achar a outra porta: a da saída.




Postado por Calliope, em 11:15 PM
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Quarta-feira, Novembro 23, 2005

Abrigo

Ela desceu até o portão do quintal de sua casa, que dava para a praia, tão logo o sol se pôs no horizonte. Fazia disso quase um rito, sempre que precisava de um tempinho consigo mesma. O contato dos pés com a areia úmida e fria, o vento no rosto, o andar cuidadoso sobre as pedras, tudo isso a ajudava a relaxar. Parecia uma menina querendo estrear o baldinho novo na praia, o coração pulava de alegria. Ao chegar ao cantinho predileto da praia já era noite, e a lua a presenteava com seus raios prateados sob as ondas, convidando-a para um banho de mar. Ela mergulhava em águas acolhedoramente mornas, aquecidas durante todo o dia pelo astro rei. Era como retornar ao útero materno, tamanha a sensação de aconchego proporcionada. Ela adorava ficar ali, diante da cortina de estrelas que a cidade e suas luzes escondem, mas que no seu refúgio tinham um lugar de destaque, e se ficasse um tempo observando, poderia até encontrar estrelas cadentes, e num lampejo de ingenuidade fazer-lhes um pedido secreto. Depois ela nadava, de um jeito tão natural que parecia que a água era o seu segundo lar. Gostava também de cantarolar alguma canção que combinasse com o seu estado de espírito, entre um mergulho e outro. Ao sair da água, deitava-se preguiçosamente sobre as pedras, e ali ficava, perdida entre seus pensamentos. Havia feito esta visita tantas vezes ao lado do grande amor de sua vida, que ainda lhe parecia estranho o silêncio do lugar, quebrado apenas pelo som das ondas se desfazendo nas pedras. Tinha a nítida impressão de que ele surgiria, do nada, com aquele sorriso lindo nos lábios, a convidar-lhe para outro banho: pura ilusão. Mas ficava feliz ao perceber que ainda era capaz de desfrutar daquela paz, mesmo sem ele. E se perdia novamente em seus pensamentos. Falava sozinha, como se pudesse mergulhar os problemas, as angústias e tristezas nas cálidas águas do mar e trazê-los de volta, purificados. Era assim que seu coração se sentia a cada visita, renovado pelas forças da natureza. Ela podia ficar horas e horas ali, sem se dar conta do tempo passar, porque o mundo todo ficava sempre do lado de fora. Ao voltar para casa, sentia-se tão leve que quase poderia flutuar. Sabia que aquele cantinho seria para sempre seu, e que sempre poderia voltar. Era o que lhe dava forças para continuar a jornada: imaginar que sempre poderia estar ali, mitigando as mazelas da alma e do coração. Para sempre.

Postado por Calliope, em 12:28 AM
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Quinta-feira, Novembro 17, 2005

Com gosto de fruta madura....

Apesar de ter visto mangas à venda praticamente o ano todo nos hortifrutis, agora sim, estamos chegando na época certa delas. Minha mãe comprou algumas, imensas, com um desses vendedores de rua, e foi a maior decepção quando fui provar uma: não tinha gosto de quase nada! Nem de longe pareciam as mangas que eu comia na infância, quando morava no interior de São Paulo: aquilo sim, manga de verdade! Colhidas diretamente no pé, com a turma de amiguinhos, ou trocada em cestas com os vizinhos, eram cheirosas, saborosas e suculentas. Tinha de vários tipos: coração de boi, espada, rosa....grandes ou pequenas, umas mais doces, outras mais carnudas...quem nunca "se acabou" numa manga, ficando com as mãos e a boca amareladas e os dentes cheios de fiapos (que incomodavam o resto do dia!!), não sabe o que está perdendo :) Manga não é pra se comer de maneira chique não...garfo e faca nem pensar.....pra ser gostoso, tem que se lambuzar mesmo. Quantas traquinagens fiz com os coleguinhas, invadindo quintais alheios em busca de aventuras e mangas fresquinhas, quantos muros pulados e corridas fugindo de cachorros...estas então, eram ainda mais gostosas! Com a polpa, nossas mães faziam doces e compotas. Com os caroços, nós fazíamos bonecas e brincávamos de fantoches. Eram horas e horas lavando e penteando os fiapos dos caroços, até ficarem brancos!
Fim de ano sempre teve cheiro de manga e gosto de jabuticaba, por muito tempo, pra mim. Agora fica difícil entrar na nostalgia gostosa deste túnel do tempo, com estas frutas atuais, insípidas e sem graça. Acho que estou ficando velha mesmo, hahahahaha! Afinal eu sou do tempo não só das frutas com sabor, mas dos telefones com 4 números no código DDD e apenas 2 no prefixo. Do tempo em que açúcar e farinha vinham em embalagem de papel, e que pra comprar refrigerante tinha que levar "o casco" pra trocar. Sem celular, computador, TV a cabo, CD ou shopping. Do tempo em que o CEP tinha 5 números e as placas de carro eram amarelinhas. Da TV sem controle remoto e que demorava pra aparecer a imagem (a gente ficava só ouvindo, até esquentar....), pesadona e com caixa de madeira. Da fralda de pano e do disco de vinil. Onde um cara bonito era "um pão" e a paquera acontecia nos bailinhos com música pra dançar junto, na casa dos amigos. E mais uma lista imensa, que eu passaria o resto do dia contando a vocês e ainda assim teria outras pra contar. E torço pra que, um dia, as mangas voltem a ter aquele delicioso sabor!

Postado por Calliope, em 1:11 PM
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Sábado, Novembro 05, 2005

Lixo sempre incomoda......

Nos cursos de Educação Ambiental em que leciono no Horto, sempre faço uma oficina sobre reciclagem de lixo, como nos cursos de férias, onde levamos os alunos até o antigo lixão (que virou Parque Ecológico) pra discutir a problemática do acúmulo de lixo nos dias de hoje. No mundo virtual não é diferente: o lixo eletrônico atrapalha, enche o saco!!
As estratégias atuais para dissipação de vírus e propagandas se baseiam em algo inerente ao ser humano: a curiosidade. "Lembra-se de mim? Estudamos juntos! Veja as fotos!" ou um simples "oi, tudo bem?" no subject. Alguns chegam mais longe para mexer nos sentimentos: "alguém que te ama muito enviou um cartão para você" ou mais drasticamente, "você está sendo traído! Veja as fotos!". Para os homens, "fotos da ex-BBB fulana de tal nua" ou "aumente seu pênis" (bom, deveria ser direcionado somente aos marmanjos, mas volta e meia eu recebo isso tb....). Para as mulheres, "emagreça 7 kg em uma semana!" ou "todos os segredos da maquiagem" (acredite, eu recebi isso....). Para os desligados em geral, tem os serviços gratuitos que vão ser pagos a menos que vc repasse a mensagem pra 2345594587363 pessoas. Afinal só sendo muito desligado (ou tapado mesmo!!) pra achar que uma empresa ameaçaria cobrar por algo mas desistiria se muita gente ficasse sabendo, né? Cada uma! Pros gastadores descontrolados, avisos falsos de cobrança/cancelamento de documentos/ida pro SPC e SERASA. Para aqueles que adoram uma promoçãozinha (tipo eu), vales compra , presentes e descontos falsos. Pros folgados, "ganhe dinheiro sem sair de casa". Pros cuidadosos, novos antivírus. Tudo tão verdadeiro quanto uma nota de 8 reais! :)
Boletins que não assinamos, notícias que não queremos, cursos que jamais faríamos, coisas que não compramos. E de todos os spams, o que mais me irrita são as correntes, porque em geral não são enviadas por estranhos, mas por amigos nossos, seja por medo de quebrar a corrente caso não repasse, seja por acreditar no material anexado (crianças desaparecidas ou doentes, fotos montadas de coisas espetaculares, denúncias, abaixo-assinados, etc, etc, etc). As vezes a corrente vem disfarçada de mensagem-bonitinha-com-imagens-bonitinhas-feitas-no-powerpoint, mas se o texto valer a pena, eu simplesmente corto a parte da corrente antes de enviar a alguém. Sim, eu sou a maior quebradora de correntes do mundo! Não repasso mesmo. Já exclui amigos da lista de contatos que só enviavam correntes, e sempre que sou premiada com alguma, deixo bem claro pra quem me mandou o quanto não gosto disso. Se recebo alguma do tipo "você foi abraçada! Abrace tb!" ou "se vc recebeu isso é porque alguém gosta muito de você, mande de volta pra quem te mandou", agradeço pela consideração, mas nem assim eu repasso. Tenho arrepios cada vez que leio "mande isto para n pessoas". Tou fora! Tenho um endereço de e-mail antigo, completamente infestado de spams, mas que é a minha única forma de contato com algumas pessoas e que acabou me causando um certo sentimentalismo, que impediu que eu encerra-se a conta. Daqueles e-mails que a gente só verifica de vez em quando e que tem 300 mensagens não lidas, sabe? E cujas 298 mensagens de propaganda vão pra lixeira sem nem serem abertas. De uma certa forma é o meu laboratório de spam, pois se aparece lá, tem grandes chances de ser enganação. Até o lixo eletrônico tem algo de aproveitável, viu? :) Mas haja paciência!

Postado por Calliope, em 12:44 AM
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Quarta-feira, Novembro 02, 2005

A saudade

Pode ser suave, embalada pela nostalgia. Pode ser gostosa, quando banhada pelo esquecimento dos maus momentos. Pode nem mesmo doer, trazendo suspiros e sorrisos perdidos. Como pétalas de flores, levadas pelo vento, mas que ainda perfumam...
Pode ser trazida por um objeto, um odor, uma situação, uma época. Chegar de mansinho, ou de sopetão. Ser uma benção, se tornar uma canção. Deixar um sorriso no canto da boca, ou um brilho no olhar, até se sublimar por inteira, de volta ao esquecimento.
Pode ser evocada a qualquer hora, invadir a alma da gente, feito o cheiro de pão assando que invade a casa, sem pedir licença. Pode servir de exemplo, de consolo, de esperança. Ser carregada na bagagem da vida como experiência. Encerrada no peito, como presa numa concha.
Mas até que possamos lidar com ela desta forma, sem nos ferirmos, leva tempo. Até que deixe de sufocar e de maltratar, percorre um longo caminho. Porque toda saudade começa assim: uma máquina de moer o coração. Que esmaga e tritura, sem cerimônia, nem piedade. Cujo combustível são lágrimas derramadas, entremeadas de soluços, permeadas pelo desespero.
Toda saudade começa parecendo que nunca vai deixar de maltratar a gente. Sem explicação. Por muito tempo, baila à nossa volta, de braços dados com a inconformidade. Tempestade a desgovernar o leme, fazendo perder a direção. Até ser domada, cativada, apreendida, causa estragos, por vezes irreversíveis, por vezes, insuportáveis. Desta forma, nos obriga a encarar a ausência e a desolação.
Jamais teremos controle deste processo de lenta transformação. Mas se não ignorarmos a dor, e a vivenciar por inteira, temos chance de sobreviver no final das contas. Olhar no espelho, de olhos inchados, e dizer que vencemos. Entender que somos mais fortes que as circunstâncias. Empurrar pra longe o sofrimento, e esperar pela misericórdia divina, longânime e justa, que a seu tempo, traz o consolo.
Então o tempo, a distância, ou ambos, se encarregam, como um bálsamo, de minimizar a dor, secar as lágrimas, apaziguar o coração. De gigante avassalador, passa a ser criança, em sua pureza e inocência. Dá o entendimento à alma e o conforto ao coração. E o discernimento necessário para saber se esta saudade, lapidada, vai se transformar numa pérola e ser guardada no coração, ou refutada, e descartada, no lixo do esquecimento, dependendo de sua natureza.
É nisso que me apego e que acredito, diante da imensa saudade que hoje, me consome as forças e alcança, sem piedade, meu coração...

Postado por Calliope, em 12:23 AM
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