Terça-feira, Abril 11, 2006
O leito do hospital e as cascas de melancia
Das coisas que tem peso em minha vida, a que mais me desestabiliza, mais me deixa vulnerável e mais oscila é a vida amorosa. De uns tempos para cá tenho vivido emoções muito fortes, porém muito mais efêmeras do que eu gostaria e tenho certeza de que alguma coisa (ou toda a coisa!) está errada. Isso reflete negativamente em outros aspectos do meu cotidiano, porque se o coração não vai bem, parece que todo o restante também não, num efeito dominó indesejado e doloroso. Das decisões difíceis que tenho que tomar, a grande maioria diz respeito a estes sentimentos confusos, paralelos e distintos que se instalaram em minha alma, mas tenho certeza de que desta vez fiz a coisa certa, mesmo que doesse muito mais do que a errada.
E nesse meu mundinho restrito e egoísta de dores, estava eu experimentando as mais terríveis agonias, quando fui parar no hospital público de minha cidade, não por enfermidade, mas como acompanhante de uma de minhas estagiárias, que passara mal no período do trabalho. Enquanto aguardava seu socorro, deparei-me com a miséria humana da doença, do descaso público com a saúde alheia e da falta de recursos daquela ala emergencial, diante dos quais era impossível se sentir indiferente.
Além das salas cheias, corredores com macas improvisavam leitos aos menos desfavorecidos, que jaziam ali sem a menor esperança em seus olhares. Chamou minha atenção uma mulher franzina, coberta com um lençol, que tomava soro silenciosamente. Não sei precisar a idade, porque o sofrimento envelhece as pessoas, mas chutaria que ela esteja na faixa dos trinta anos. Cabelos curtos, pele ressequida e corpo magro, parecia aguardar simplesmente a morte. O único sinal aparente de vida era um mexer da mão direita, que pendia por sobre a cabeça, vez ou outra. Olhei para o bilhete colado ao pé da cama, que dizia o triste diagnóstico: tumor cerebral.
Nem sei dizer quanto tempo passei observando aquela mulher, mas sei que foi o suficiente para me sentir uma criatura miserável por achar que tenho problemas em minha vida. Que são meus devaneios amorosos, diante daquele quadro nefasto? Absolutamente nada!!! Tenho saúde, um bem precioso demais que ingratamente esqueço de agradecer a Deus todos os dias!!!! Tive vergonha de mim mesma. E lembrei de um fato ocorrido na infância, que jamais esqueci....
Eu estava de férias na casa de minha avó materna, quando minha mãe comprou uma melancia para comermos à tarde, e como sempre acontecia, eu e meu irmão (de dois anos de diferença de idade) estávamos brigando por algum motivo bobo que nem me recordo, sobre os pedaços de melancia, deixando minha mãe maluca! E pouco depois dela descartar as cascas de melancia no lixo e vir apartar nós dois, ouvimos um barulho no portão e saímos para ver. Eram os dois filhos de um dos vizinhos de minha avó, muito pobres, um deles inclusive com problemas mentais, que se degladiavam pelas cascas por nós descartadas, como se fossem verdadeiros manjares. Aquela cena tocou demais minha mãe, que chocada, correu para a cozinha, para buscar a metade da melancia que sobrara, e ofertar a aqueles dois antes que se machucassem. Poucas vezes em minha vida eu vi uma alegria tão genuína como a deles, que sorriam, gritavam e choravam, agradecendo minha mãe como se ela fosse uma santa. Na época, eu era criança demais para compreender o significado daquilo tudo, mas esta história foi repetida muitas e muitas vezes por mamãe a nós todos, como lição de moral, de que não devemos reclamar de nossa sorte, pois irmãozinhos menos favorecidos dariam tudo para estar em nosso lugar.
Quantas vezes reclamamos de barriga cheia? Quantas vezes achamos que nossos problemas são os piores e os menos remediáveis? Quanta lamentação e autopiedade já me corroeram o espírito desnecessariamente? Quem precisava de atendimento médico era a minha estagiária, mas quem recebeu o bálsamo para as feridas do coração, fui eu. E peço a Deus que aquela mulher possa de alguma forma experimentar, nem que momentaneamente, o alívio de suas dores, assim como ela mesmo sem saber, me ofertou o alívio do meu coração.
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Quarta-feira, Abril 05, 2006
A colheita
As escolhas fazem parte de nossa vida a todo momento. Das mais simples e triviais, como o que vamos vestir, comer, usar, até as mais complexas, como perdoar, mudar, se entregar, as decisões permeiam nosso cotidiano de maneira tão intrínseca que, por vezes, nem nos damos conta delas, apenas nos deparamos com suas conseqüências. A sociedade, consumista e capitalista, nos impõe escolhas em nosso padrão de comportamento sem sequer nos consultar, fazendo tudo parecer dentro da total normalidade. Até mesmo Deus, em sua infinita bondade, nos dá um livre arbítrio que se mal gerenciado, nos conduz a escolhas dolorosas. Parece mesmo então que absolutamente tudo depende de nós e do que escolhemos ou decidimos! Mas será que sabemos lidar com isso? Teremos nós o discernimento suficiente para apostar nas escolhas certas? Nem sempre.
Seria bom se o poder de decisão fosse algo tomado totalmente no âmbito consciente da gente, ou se pelo menos, tivéssemos sempre o dom de ponderar sobre nossas escolhas até não restar mais dúvidas, mas na prática não é o que acontece. Nos deixamos levar por emoções, colocamos a culpa na correria do dia dia, encobrimos os verdadeiros motivos com nossos medos e inseguranças. O resultado? Escolhas mal feitas, decisões precipitadas, frustração e culpa. E acabamos nos perdendo de tal forma em nossos atalhos que não conseguimos enxergar o caminho de volta, que existe na maioria das vezes. Nas escolas, não fomos preparados para decidir nada, o conhecimento nos foi dado de forma mastigada e semi digerida para que não tivéssemos de usar a massa cinzenta de forma mais ampla. Se aprendemos de verdade alguma coisa, é porque nos baseamos no método de "tentativa e erro" e cá entre nós, somos propensos a aprender sempre da maneira mais dolorosa e difícil: quebrando a cara!
Decidir não é realmente algo fácil e implica em perdas. Não há sequer uma escolha em que não tenhamos aberto mão de alguma coisa, o que torna o processo todo extremamente complicado, porque também não fomos preparados para lidar com este tipo de frustração. Portanto não é de se espantar que algumas vezes deixemos que decidam por nós e até mesmo que nos acostumemos a fugir das escolhas e decisões mais importantes. Com isso, vivemos coisas pela metade, deixamos arestas a serem aparadas, nos contentamos com respostas menos satisfatórias. Nos acomodamos no meio termo, no morno, no limbo, e empurramos os problemas com a barriga até onde der. E se você conhecer alguém que, vivendo assim, consegue ser feliz de verdade, eu não sei em que mundo você vive, mas com certeza não é o meu.
A única certeza que podemos ter é a de que logo mais, ali na frente, teremos outra escolha para fazer, estando preparado para ela ou não. Quando deixamos as rédeas da vida soltas, o destino se incumbe de nos fazer defrontar com as escolhas mais difíceis, cedo ou tarde. Então não nos resta muita saída, senão ponderar sobre todos os prós e contras e escolher para que lado ir. Eu estou assim ultimamente, diante de escolhas terrivelmente difíceis e extremamente necessárias, que bailam a minha volta sem cessar. E até que eu descubra quais as conseqüências de tudo que preciso decidir, não terei sossego, eu sei. Mas eu decidi que quero e vou mudar e que por si só, já é a mais difícil de todas as escolhas. Seja, acima de tudo, o que Deus quiser!!!!
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