Segunda-feira, Agosto 28, 2006
Eu, caçador de mim
A arqueologia é uma ciência fascinante. O resgate, a busca do entendimento dos achados, a compreensão dos artefatos, a recomposição da história...tudo colabora para o conhecimento da humanidade, sua cultura, sua origem. Os arqueologistas, assim como os médicos, ganham uma aura mística, um status conferido a aqueles que vão além do entendimento comum, do trivial. Mas há um tipo de resgate que, apesar de não se encaixar exatamente nas funções da paleontologia, demanda um esforço e um nível de dificuldade semelhantes: o de sentimentos escondidos no fundo da alma, encobertos pelos medos, incertezas, pelas dores da vida. Alguns tão incrustados, tão petrificados, que se assemelham a fósseis, de difícil acesso e mais difícil ainda compreensão. A escavação destes não é feita por uma equipe de cientistas, mas ditada pela vida, que em alguns momentos nos revira pelo avesso, trazendo à tona o que antes estava escondido.
Se tem um defeito com o qual eu lute há muitos anos em minha vida, é o de guardar mágoas e ressentimentos. Tenho consciência da minha fragilidade sentimental, fonte deste terrível costume. E à medida que fui aprendendo a cultivar minha autoestima, fui aos poucos abandonando alguns rancores. Mas alguns são realmente muito mais difíceis de serem extirpados que outros. Sentimentos mal resolvidos, sufocados, aprisionados, banhados em egoísmo e orgulho, instalados como tumores entre os tecidos saudáveis, e o que é pior: liberando lentamente na corrente sanguínea, um poderoso e lento veneno. Dar de cara com eles é extremamente doloroso e complicado. Nem sempre sei lidar com isso, nem interpretar o que acho, nem o que fazer depois. Mas se a vida nos coloca frente a frente com eles, não temos como ignora-los! Ao invés do paleontólogo, entra em cena o psicólogo. Ou ao menos, deveria entrar, pois de fato nunca procurei ajuda profissional, apenas dos amigos. Estar disposto a mudar é o começo do caminho, não? Se não por mim, que ao menos seja por aqueles que amo, e que acabam sendo brutalmente afetados, agora ou no futuro.
Eu tenho tentado remexer em algumas feridas, mas ainda não achei os instrumentos certos para fazer isso da forma correta. Mas sei que abrir mão de algumas escolhas erradas se faz necessário. E muitas vezes, saber o que não fazer é tão ou mais importante do que saber o que fazer. Resta saber se eu vou ficar bem no meu modelito "Indiana Jones", hum? Mãos a obra!!!
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Sexta-feira, Agosto 18, 2006
O dia seguinte
Sabe quando você acorda de um pesadelo? Aquela sensação de alívio? Ou quando você pára de chorar e dá um suspiro imenso? Quando o céu abre depois de muitos dias de chuva? Sabe quando você, depois de um dia de muito cansaço e calor, entra debaixo do chuveiro, e deixa a água correr sobre os ombros?
É a sensação do dia seguinte. De cumprir uma etapa, de definir uma meta. O gosto da mudança dos ventos, do novo degrau escalado. O sol nascendo de novo. Ainda sem saber se há motivos pra sorrir, pelo menos de imediato...mas recomeçar. Permitir-se uma nova chance. Acreditar em si , mesmo com os ossos todos doloridos, os olhos ressequidos, a boca sedenta. Olhar no espelho e se reconhecer, sem autopiedade. Dar passos sem medo de cair. Assim estou eu, andando por aí, contando passos no meio da multidão. Se estou bem? Acho que sim. Ao menos fiz aquilo que estava ao meu alcance e que tinha que fazer. Não foi fácil, nem agradável, mas fiz. Fui honesta. Fui decidida. Fui forte. Estou pagando um preço caro, porém justo. Um dia ele vai entender porque teve que ser assim, talvez não...talvez o ódio lhe cegue de vez, mas já não será problema meu. Fui lá no limbo, buscar a minha alma, que vagava sem rumo e fria, dei-lhe um sopro e a vesti. Estou pronta, pro que der e vier!
E nada como um dia após o outro....
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Domingo, Agosto 13, 2006
Déjà vu
Hoje não quero festa, nem cantoria. Nada de bebidas, vozes altas, nem gente dançando. Não quero o burburinho das multidões, nem mesmo o cochicho entre amigos. A alegria não me alcança, a não ser muito superficialmente e mesmo assim, por pouquíssimo tempo.
Hoje não quero cobranças, nem explicações, nem motivos. Não quero ter que repetir a lamentação e o desgosto que recaem sobre meus ombros. Nem discursar sobre a falta que a razão me faz. Não quero prometer nada, nem dizer que vou ficar bem quando tudo passar. Não quero remoer a culpa, nem me afogar em meu próprio pranto.
Hoje não quero ficar dando voltas e mais voltas, pra no final das contas, parar no mesmo lugar. Não quero refletir, se não for pra chegar a uma nova conclusão. Não quero me perder de novo. Cansei da falta de mapas, de rumo, de bússola. Vou ficar num canto até minha mãe me achar, me pegar pela mão e me levar pra casa.
Hoje não quero multidão, nem olhares julgadores. Nada de lugares públicos, estranhos com olhar de piedade ou de interrogação. Não tenho satisfações para distribuir, nem ao menos sorrisos. Nem mesmo os amarelos.
O que eu quero então?
Ficar quieta no meu canto, no mais profundo silêncio, sem incomodar ninguém. Esquecer e ser esquecida. Quero cobrir meu rosto com as mãos, ou simplesmente abraçar meus joelhos. Aceitar quem sou e minha condição. Sentir meus limites, minhas limitações. Compreender aqueles conselhos que consigo ofertar aos outros, dos quais também preciso.
Aliás, não quero nem me lamentar mais. Nem eu estou me agüentando!
Fui.
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Quarta-feira, Agosto 02, 2006
Adorável inverno
Ah, o frio! Enfim o inverno chegara, de sopetão, sem mandar avisos, mas muito prazeiroso....e ela simplesmente adora o frio. Adora dormir enrolada em densos cobertores macios, os pijamas largos e confortáveis, as meias felpudas... O aroma delicioso do café fumegante, da xícara de chá que conforta, da sopa de feijão que só sua mãe faz com maestria. Inverno é proximidade, é conforto, é elegância, que ela usufrui com tamanha alegria, que é como se voltasse a ser criança. É verdade que a chuva atrapalhava um pouco, sobretudo na hora de sair de casa, ou pior ainda: a hora de sair da cama, cujo aconchego implora por mais cinco irresistíveis minutos de pura enrolação. Não que ela não gostasse de chuva, pelo contrário, aprendera a ver a beleza dos dias cinzas tanto quanto a dos dias azuis, mas em combinação com o frio, trazia um certo desconforto. Perdoava silenciosamente a chuva quando esta se tornava uma discreta trilha sonora nas horas de descanso. E a enfrentava vigorosamente pelas ruas, perguntando-se porque tantas coisas evoluíram, menos o bendito do guarda-chuva, que teima em ser esquecido em qualquer canto, especialmente nas horas em que ela mais precisava.
Agora finalmente podia estrear os dois gorros novos, que comprara na estação passada, mas onde o frio não fora suficiente para tanto. E também os elegantes casacos de lã, macios e compridos, de cores fortes como as rajadas de vento. Gostava em especial de um azul, dado pelo seu pai, justamente por lembrar seu tão amado e querido amigo, de quem tanto sentia falta. Sorriu ao ver seu filho brincando com as luvas, batendo palmas "surdas", exatamente como fazia quando tinha sua idade. De fazer graça ao ver a "fumacinha" sair da boca ao falar, e fingir que fumava. Era impressionante como os dois se pareciam, e um pouco triste que não tivessem se conhecido, mas procurava não pensar nisso, pois um dia, em outro plano, sabia que entenderia os motivos do destino. Hoje, só queria saber do abraço quentinho e gostoso do seu pequenino, mais confortante que o edredom compartilhado no sofá, enquanto assistiam um filme. Pensou no quanto seria gostoso viver no sul do país, e ter um pouco mais dessa poderosa estação. Sentia saudades do frio do interior, um frio seco, sem chuva e de pouca umidade, de ventos uivantes e congelantes, enfim, um frio de verdade, de termômetros marcando próximo de zero. Ria quando alguém reclamava dos 15 graus do frio litorâneo, tão brando e úmido, que nem lembrava aquele frio caipira, de congelar a geada da madrugada, fazendo belas esculturas sobre as folhas.
Apreciava também os dias mais curtos, a escuridão chegando cedo, pois tem na noite uma aliada preciosa.E quando não chovia, gostava imensamente de caminhar pela beira da praia, sem o desconforto do calor e do suor, vendo o mar revolto e forte, majestoso como sempre. Até tomar um banho de sol no meio do dia era bom. Algo completamente impensável nos tempos de verão, mas que no inverno ganha uma sutileza deliciosa. Gostava de inverter as prioridades da estação passada: fugir das sombras e aquecer-se ao sol, de olhos fechados, como se o calor chegasse até os ossos. Ou simplesmente estender as mãos sobre o vapor que exala das chaleiras, ou ainda, segurar a caneca de chocolate quente por mais tempo.
Ah, o frio....ela torce pra que ele demore a ir embora....
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